Velho Rio/Velho Eu – Novo Rio/Novo Eu

Segundo Heráclito, não é possível pisar duas vezes no mesmo rio, pois o rio não é mais o mesmo, tampouco a pessoa seria a mesma, quando comparados ao momento do primeiro contato. Há diversas formas de interpretar isso, pois cada pessoa, como indivíduo, deve considerar seus conhecimentos e sua vivência e aplicá-los de forma a gerar uma interpretação que lhe convenha. A meu ver, só o fato de se repetir a ação já a torna diferente do que quando ela foi realiza pela primeira vez, pois os padrões de análise já seriam diferentes tanto para o autor da ação quando para um observador externo.

Resolvi, conscientemente, fazer uma experiência pessoal, não com um rio, mas com informações advindas de algumas fontes “fixas” como escrita, imagem e som. Busquei um livro, um filme/série e uma música que me marcaram há 3 décadas ou mais e com os quais não tive interação desde então.

O livro que me marcou profundamente foi o Homem que Calculava de Malba Tahan (pseudônimo de Júlio César de Melo e Sousa), que quando o li pela primeira vez, eu era um estudante que gostava de ciências e, especialmente, matemática, mas não dominava o conhecimento que adquiri posteriormente em décadas de estudo no colégio e na faculdade de engenharia. Ao relê-lo, as peripécias matemáticas do protagonista saíram do primeiro plano e uma visão mais ampla do ambiente em que se passava a narrativa, bem como, aspectos das relações humanas se sobressaíram e, claro, a importância do conhecimento e da experiência, sejam eles quais forem, para a maior liberdade do indivíduo em escolher seu caminho.

A série foi Viagem ao Fundo do Mar, que na época que assisti teve o efeito equivalente aos filmes de aventura de hoje nas crianças, com monstros, inimigos ocultos, espionagem, disputas navais, etc. Novamente, ao rever um episódio, notei como a série representava o cenário geopolítico da época, e como ela tratava os possíveis avanços tecnológicos e seus riscos para a humanidade, mas além disso, a relação entre os protagonistas que sempre fora, para mim, um item simples de hierarquia militar mudou completamente, a hierarquia é fundamental para a operação em ambientes desafiadores, como em um submarino sob ameaça, mas são os modernamente chamados soft skills que garantem a sobrevivência ou não da coletividade.

Finalmente, a música foi Cult of Personality do Living Colour, que na época me cativou muito pelo som, que considero um dos grandes riffs da década de 80, pelo refrão e pela performance da banda. Mas ao rever a música, acho que a letra e seu significado são totalmente atemporais, pois poderíamos substituir vários nomes de personalidades citados por nomes atuais sem perder a mensagem. Nessa nova experiência, a frase que mais me chamou atenção foi “I exploit you still you love me”, além é claro do quão profunda é a mensagem sobre a falsa sensação de segurança e poder que os seguidores dos personalistas tem e do verdadeiro controle que tais “líderes” possuem, inclusive sobre a liberdade individual, que é retirada com a própria anuência dos seguidores, conscientemente ou não.

Conclusão, este é um experimento pessoal e seu resultado só tem valor para mim, mas se eu puder dar um conselho, tente fazer algo similar e veja se os resultados vão te surpreender também.

Foto por Ian Turnell em Pexels.com

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